Você lê francês mas não ouve: quantas palavras e de que tipo

Uma leitora com um livro enquanto duas pessoas conversam, e o som chega em ondas coloridas

O brasileiro tem uma vantagem no francês que o falante de espanhol não tem, e ela está no ouvido. Isso muda quais palavras custam caro e quais chegam quase de graça.

As vogais nasais já estão na sua boca

O francês tem vogais nasais e o português também. Vin, vent e vont são três sons distintos que um falante de espanhol recebe como um só, porque o espanhol não nasaliza. Quem já diz sim, bem e bom tem as três posições prontas.

O português também reduz vogais átonas, o que ajuda com o e mudo do francês: petit sai naturalmente com a primeira sílaba encolhida. São dois mecanismos que o francês usa o tempo todo e que você já tem em casa.

O vocabulário culto vem junto

As duas línguas vêm do latim e dividem quase todo o vocabulário culto: possible, national, université, gouvernement, difficile. As correspondências são regulares: -ção vira -tion, -dade vira -té, e quem lê chega a esse estoque anos antes.

Falar não adianta nada, porque em francês a escrita e a fala são dois sistemas. Parle, parles e parlent têm uma pronúncia e três grafias. Vert, verre e vers têm um som e significados diferentes. Quem monta vocabulário só pelo papel acumula palavras que não produzem nada quando ouvidas.

Quantas palavras cobrem quanto do francês?

Linguistas medem vocabulário em cobertura de texto: a fatia de palavras que você reconhece. As contagens de Paul Nation dão valores estáveis.

Famílias de palavrasCobertura da falaO que permite
1.00085%Trocas simples sobre assuntos familiares
3.00095%Jornal com fluidez, filme com legenda em francês
6.000 a 7.00098%Rádio, cinema sem legenda, uma mesa com vários franceses

O último patamar é o mais subestimado. Com várias pessoas falando somem todas as muletas, e a diferença entre 95% e 98% vira a diferença entre participar e concordar com a cabeça.

Onde a proximidade cobra o preço?

  • Gêneros que não batem. O sangue é le sang e bate, mas a árvore é l'arbre masculino e o mar é la mer feminino. Guarde sempre o artigo junto.
  • Falsos amigos. Attendre é esperar, rester é ficar, quitter é deixar, blesser é ferir e não abençoar.
  • A liaison. Les amis sai como «lezami». Você conhece amis e não o reconhece dentro da frase.

Quais 6.000, e em que ordem

A curva de frequência do francês é íngreme. Être, avoir, faire, aller, dire aparecem em todo lugar, enquanto a maioria das entradas do dicionário quase nunca aparece. Mil palavras bem escolhidas compram mais compreensão do que três mil ao acaso.

Para um brasileiro há uma segunda peneira. Cognato transparente como possible não precisa de revisão: você acerta na primeira e vai continuar acertando. O esforço deve ir para os falsos amigos, para o que o português não cobre e para os verbos frequentes.

Os verbos carregam mais que os substantivos

Com cinquenta substantivos você aponta para as coisas. Com quinze verbos frequentes você se vira, porque o mesmo verbo reaparece em toda situação. Vouloir, pouvoir, devoir, savoir, falloir: cinco irregulares que sustentam metade das frases do dia a dia.

O problema é que cada um gera dezenas de formas. Um cartão por forma conjugada torna o baralho ingovernável em um mês. Reduza ao que se ouve de fato: presente, passé composé e o futuro com aller. O imperfeito entra depois, e o subjuntivo só com os vinte verbos em que aparece todo dia.

Os patamares, na prática

  • 500 palavras: se virar. Comprar, pedir, perguntar o caminho.
  • 1.000 palavras: conversar com quem faz esforço por você.
  • 3.000 palavras: ler jornal, acompanhar filme com legenda em francês.
  • 6.000 palavras: rádio, cinema sem legenda, uma mesa com quatro franceses ao mesmo tempo.

O francês da escola não é o da rua

O material didático ensina nous mangeons e a rua diz on mange. Ensina je ne sais pas e o ouvido recebe chais pas. O ne da negação desaparece na fala quase sempre.

Se todo o seu vocabulário vem de livro, você constrói algo que funciona na prova e trava numa mesa de bar. A correção custa uma linha: quando a forma falada for diferente, guarde as duas na mesma ficha.

Quanto tempo leva para chegar a 6.000 palavras em francês?

Com dez palavras diárias você cruza a marca de mil antes do quarto mês e chega perto de três mil ao fim do primeiro ano, gastando cinco minutos por dia. O gargalo nunca é aprender, é esquecer, e é para isso que existe a repetição espaçada.

Trinta por dia parecem melhores por duas semanas, até a carga triplicar e a sessão passar de vinte minutos. Cada palavra que você adiciona hoje compra revisões pelos próximos meses.

Fontes

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